quarta-feira, 18 de novembro de 2009
Capítulo 8
No momento no qual saí da farmácia com a caixa de remédios no bolso, senti um forte impulso de atrasar um pouco o meu retorno em troca de uma cervejinha num bar próximo.
Escolhi a mesa mais reservada, próxima a saída que dava para a praia. Fiz meu pedido ao garçom e acendi o primeiro cigarro daquela noite.
É inacreditável como nós perdemos fenômenos tão belos por meros caprichos da nossa atuação diária, atuação essa que se sobrepõe oferecendo-nos valores completamente inúteis.
O silêncio prazeroso entre a lua e eu foi quebrado por um senhor aparentando seus cinqüenta e tantos anos. Assim como eu, estava sozinho numa mesa do bar. Eu poderia tê-lo ignorado e fingir permanecer na paz silenciosa que o brilho lunar me proporcionava, mas, a forma que aquele senhor se dirigiu a mim foi surpreendente, tanto é verdade que, logo nas primeiras palavras, ele possuía toda a minha atenção.
- Ela é encantadora, não é?
Antes que eu perguntasse sobre quem ele estava falando, de modo a ocultar o leve rubor que coloriu meu rosto, ele retornou a falar...
- Me desculpe se atrapalhei sua contemplação, senhor. Mas notei que, assim como eu, o senhor valoriza os altos valores da vida.
Concordando boquiaberto com cada palavra, gesticulei para que ele tomasse lugar à mesa a qual eu estava sentado.
- O senhor poderia me oferecer um dos seus cigarros, se não lhe for fazer falta?
Só então eu retornei do transe e percebi que aquele senhor referia-se a mim como "senhor". Apesar de estranhar, nada comentei. Ofereci-lhe um cigarro e, acompanhando os movimentos de aproximação dele, percebi que trazia consigo um violão. Apesar da obviedade da resposta, não pude me conter.
- O senhor é músico?
Ele encarou-me por alguns segundos e levou o dedo indicador até a têmpora, como que a me indicar para prestar maior atenção.
- Eu sou só um cara careta que tenta expor as poesias da vida em forma de melodia.
Eu não conseguia conter minha excitação a cada palavra ou gesto que aquele senhor misterioso realizava. Estava evidente nos meus olhos que eu estava adorando aquilo.
- O senhor lembra o meu filho, Carlinhos... Eu fiz uma música pra ele. Quer ouvir?
- Desde que o senhor se sentou à mesa!
Respondi-lhe de imediato, quase automaticamente. A resposta para minha reação também foi imediata. porém em acordes.
"Quero, mas não te ordeno
calmo e sereno sempre a predizer
e algo a se transformar, muda de lugar como os temporais
Carlinhos, criança que não dança dança dizendo sonhar
Carlos que remove, retira, renova com medo de errar
Carlinhos crescido num sonho encantado,
no branco ou no preto,
no certo ou errado,
o céu encarnado
Quero, mas não te ordeno
calmo e sereno sempre a predizer
e algo a se transformar, muda de lugar como os temporais"
No último refrão eu estava observando todos os detalhes do dedilhar nas cordas e reparei que ele segurava o cigarro entre o mindinho e o anelar. O cigarro já estava quase acabando ao final da música e, apesar da melodia suave e nostálgica, estive observando com muita angústia querendo alertá-lo sem que este parasse de tocar.
Quando finalmente a última nota suspirou do violão, nem precisei avisar, ele colocou o cigarro nos dedos de costume e deu o último trago.
- Se o senhor quiser que eu volte para minha mesa, não tenha vergonha de pedir. Viu?
- De forma alguma! Estou encantado pela sua música. Você tem mais?
- Com certeza! Vou tocar uma que tem uma levada mais puxada pro rock...
"Um caminho só existe
se existir pessoas nele a passar
Vou seguindo a multidão
vou na mesma direção
O sinal está aberto
Mas, eu que sou muito esperto
Vou a pé, se quiser
Vou andando pela rua
Vendo a noite, vendo a lua
e tentando te encontrar
pra lhe falar, te amo
O sinal está aberto
Mas, eu que sou muito esperto
Vou a pé, se quiser
Vou andando pela rua
vendo a noite, vendo a lua
Procurando te encontrar
pra lhe falar, te amo
te amo"
Depois dessa segunda música a barreira da intimidade já havia ido a baixo. Conversamos durante várias horas sobre nossas experiências de vida. Ele focava-se em retratar seus sentimentos pela sua família (principalmente pela filha mais nova). O amor que sentia por suas duas filhas e filho fazia com que ele se sentisse melhor, mais feliz. Apesar da dificuldade que os filhos tinham de retribuir-lhe, ele não guardava mágoa de forma alguma, o único mal era a consciência de sua própria auto-afirmação. Coisa que concordamos ser a característica mais íntima e comum dos melhores artistas. Não de uma forma pejorativa ao ego mas, partindo da idéia de que todo artista que realmente se expõe sente necessidade de estar sempre se auto-afirmando nos pequenos detalhes da vida.
Ele começara a me confidenciar a história da grande paixão de sua vida, Olga, quando me dei conta que nós não havíamos nos apresentado ainda.
- Me desculpe interrompê-lo, mas, me dei conta que ainda não nos apresentamos.
- Eita Bicho! É verdade! Meu nome é Charlot, e o do senhor?
Mais uma vez me surpreendei. Será que ele não percebia minha aparência jovem? Pelo menos pela primeira vez fez uso de gírias. O que demonstrou algum sinal de afinidade.
- Muito prazer em conhecê-lo, Charlot! Meu nome é Victor.
- Victor Hugo?
- De fato.
- Bicho! Gostei! Dois caras caretas com nomes franceses. Não é todo dia que isso acontece aqui por Recife.
- Caretas, é? Como assim?
- Que sabem valorizar os verdadeiros valores da vida, Victor.
Confesso ter ficado meio confuso com a explicação, mas, senti que ele realmente compartilhava coisas em comum comigo.
- Olha, Victor. Quando Olga foi levada pra longe de mim, eu ainda moço, decidi ir atrás dela sozinho. Peguei um ônibus e, nesse ônibus, conheci uma garota que fez a viagem ficar muito mais legal com suas mãos e bocas. O caso é que eu contei a história do porque da minha viagem e ela se dispôs a me ajudar, já que conhecia a cidade de destino melhor que eu. Chegando à cidade apanhamos um táxi e ela me deixou numa área muito arborizada, indicando que o lugar que eu procurava era ali pelas redondezas. "Vai lá encontrar sua Olguinha, Charlot!" Ela falou se despedindo de mim com um último beijo. Ela estava certa, era bem ali. Mas eu não encontrei Olga. Um tio dela me recebeu e quando tomou ciência de quem eu era e quais as minhas intenções, me expulsou da cidade, ameaçando com um revólver. Dizia que se eu me aproximasse de Olga, me mataria. Ela é a maior paixão da minha vida e não adiantam quantas outras mais eu amei ou ainda ame, não a esqueci e creio que jamais a esquecerei.
Ele tomou um trago da cerveja e afundou junto com suas lembranças na cadeira.
- Sabe Charlot, assim como você tem Olga, eu também tenho alguém. O nome dela é Melissa mas, não fui obrigado por ninguém a me afastar dela. Na verdade, é absurdo eu confessar isso mas, afastei-me espontaneamente por muito amá-la. Eu prefiro deixar que grandes paixões permaneçam vivas no meu coração a estragar tudo com os desgastes do dia-a-dia.
- Faz sentido. Eu me casei ainda novo e amei minha esposa. Ainda a amo, mas, a paixão realmente não é mais a mesma. Às vezes eu faço sexo com ela só para cumprir com minhas obrigações...
- Pois é, Charlot. Às vezes é preciso o afastamento físico para se concretizar a junção espiritual.
"Ah! Se eu pudesse essa noite
perder-me nos teus braços
como a primeira vez.
Eu te faria
ver as luzes
que apaguei..."
Com uma desafinada brusca a música cessou e a expressão no rosto dele estava muito abatida.
- Me desculpe Victor! Eu não... Eu esqueci a letra.
Fingindo acreditar em suas palavras, concordei em não reparar na sua visível emotividade.
- Vou tocar uma outra que também diz muito a esse respeito.
"Cumpadre,
não me abandones.
Sei que tu honras
a minha inspiração
Preciso da tua presença
Dai-me a ira, da tua crença.
Cumpadre,
Rogo, te peço
Canto e não presto.
Já nem sei do resto
Se sou modesto,
se tenho vícios,
Céu ou inferno
Um precipício
Eu quero é saber
a cor do meu espírito
Cumpadre"
Ao término desta música o relógio já marcava duas horas da manhã e o garçom, impacientemente, nos informou que já era hora de fechar o estabelecimento.
O cigarro já havia acabado. Sugeri que fôssemos comprar mais no primeiro posto que houvesse no meio do caminho. Durante a caminhada Charlot perguntou se poderia me acompanhar até o prédio onde eu morava para continuarmos a conversa.
Apesar do cansaço, concordei.
Chegamos na área de lazer do condomínio e eu o pedi que se acomodasse, enquanto eu subia para entregar os remédios (que se dependesse da minha pontualidade, a cabeça da minha mãe, a esta altura, já haveria explodido) e descia com alguma bebida, som e um pouco de maconha. Confesso que sobre o último item, comentei de forma receosa por não ter certeza da reação, mas já esperava que ele também soubesse apreciar um bom fumo.
- Maconha, bixo? Quer dizer que o senhor também dá uma bolinha? Pô! E eu tava de cara porque perdi a minha dolinha lá no bar, antes do senhor aparecer.
Assim que ele terminou o comentário, encaramo-nos e caímos na gargalhada.
Ficamos trocando idéias até as quatro da manhã. Entre uma música e outra que Charlot tocava, conversávamos sem parar enquanto Johnny Cash e Bob Dylan regulavam a paixão no tom de nossas vozes. Quando percebemos a posição dos ponteiros, decidimos que já era o momento de nos despedirmos.
Agora não tinha mais pra onde correr, apesar de possuir uma consciência imortal, meu corpo necessitava urgentemente de repouso.
- Você notou que ele é um de nós, Victor?
- Claro, velho! Ele é um poeta.
- Não, seu bobo impulsivo! Ele é um de nós, imortais...
- Hmm... Desconfiei.
- É? E não racionalizou que poderia ser perigoso?
- Então você o ignoraria?
- De certo, não.
- Pois é... Durmamos, amanhã analisamos isso.
| Achei |
terça-feira, 10 de novembro de 2009
Capítulo 7
Finalmente meus olhos atendiam novamente aos meus comandos. Apesar da breve cegueira, causada pela primeira olhada em direção ao sol, pude contemplar os primeiros contornos da minha terra natal.
Meu primeiro desejo foi o de reencontro. Mas não com Valentina, e sim com minha família. Desde que saí de casa pela primeira vez (não por vontade própria), o que mais me causou remorso foi ter me acovardado diante minha mãe. Entorpecido pelo rancor, privei-a de ouvir de minha boca todo o amor que lhe era direcionado, independente da minha fingida inexpressividade.
Não sabia exatamente o que iria falar no instante ao qual percebi estar levando o dedo à campainha. Hesitei por alguns minutos, encarando meu próprio rosto no espelho do corredor. O reflexo dos meus familiares olhos castanho-escuros percorriam toda a extensão do meu corpo para garantir estar tudo decentemente apresentável.
Enfiei o dedo no botão e senti minhas pernas fraquejarem. Sempre me impressionei com o modo que reajo ao simples pensar na minha própria mãe. Essas reações, de fato, expunham com nitidez a minha imaturidade eterna.
Estive tão concentrado na minha desconcentração que mal pude ouvir a voz lá de dentro avisando que a porta estava aberta. Inspirei profundamente e segurei o fôlego enquanto empurrava a porta até o ponto no qual percebi que a voz pertencia a ninguém menos que minha vó. Ela estava muito concentrada num dos seus bordados e nem se deu conta, de imediato, da minha presença. Estava ladeada do seu filho mais velho, um dos meus tios. Ele olhou para mim com um olhar desamparado, quase a me fazer sentir pena. Mas, senti que havia alguma coisa estranha por trás do seu olhar, por isso, retribuí-lhe com um olhar de inexpressiva indiferença.
- Mamãe! Olhe quem está aqui.
Ele anunciou, interrompendo a nossa incômoda troca de olhares.
- É o quê, meu...
Ela começou a perguntar enquanto levava os olhos ao seu encontro, ao que, de imediato, ele respondeu com um gesto facial em minha direção. Ela percebeu haver alguém onde eu estava parado, ajeitou a armação dos óculos e, numa fração de tempo, um tanto quanto constrangedora, mudou totalmente a expressão de seu rosto abatido.
- MEU FI! AVE MARIA! PUR NOSSA SINHORA! LÚCIA! LÚCIA! HUGUIM TÁ AQUI! CORRE MULÉ, VEM AQUI!
Num pulo inacreditavelmente rápido para sua idade, ela se pôs de pé e veio em minha direção com o rosto transbordando a mais pura e extrovertida expressão de felicidade que um rosto coberto por rugas pode expressar. Abraçou-me com tanta energia que pude sentir sua própria emoção fluindo pelos poros de sua pele. Fui dragado numa enxurrada de abraços, beijos, devoções aos santos e lágrimas; quando percebi os contornos tímidos da minha mãe aproximando-se furtivamente pelos cantos do corredor principal.
Toda euforia sonora que minha vó continuava a emitir pareceu cessar, minhas pernas mais uma vez voltaram a falhar e o meu coração passou a bater de forma a se fazer presente.
Após tantos anos, estava novamente frente a frente com ela. Seus movimentos denunciavam possuir as mesmas dificuldades que os meus. Apesar disso, nos aproximamos em silêncio e antes que nos envolvêssemos num abraço, houve aquele determinado olhar que há anos desejei.
Apesar de sentir seu interior vibrando de alegria por estar em contato comigo novamente, seu corpo permanecia incrivelmente inabalado. Ela parecia estar aprisionada dentro dela própria. Antes de separarmos nossos corpos, senti um suspiro que de tempos em tempos voltava a me assombrar. Ela estava prestes a chorar e eu me vi na beira do mesmo abismo.
Disfarcei minha visível fragilidade dando as costas para trazer para dentro as minhas malas, que haviam ficado no corredor de vidro da entrada.
- Eita! Meu fi voltô di veiz, foi?
Sem saber como dizer que não e tomado pela sensação de estar sendo humildemente acolhido pelos meus próprios Deuses, respondi:
- Ehr... Acho que sim, vovó. Dá pra ficar aqui por enquan...
- OXI! Maisé claro, meu fi! Seu quarto ainda tá do jeitim que você dexô. Num dexei ninguém buli nas suas coisa.
Ela continuava a falar enquanto ia me empurrando em direção ao quarto.
Estava sempre exagerando nas coisas que falava, por isso tamanha fora minha surpresa ao perceber que realmente tudo estava como havia deixado anteriormente... Os livros na mesma ordem (tamanho, editora, autor, data de publicação), os cd's empilhados por ordem decrescente de acordo com meus artistas preferidos...
Dediquei o resto do dia a ouvir todas as novidades da minha vó, algumas repetidas mais de duas vezes: minha mãe continuava num estado avançado de depressão, meus irmãos haviam ido morar com o pai (o que, visivelmente, agravou ainda mais a decadência da minha mãe), as finanças da família estavam no vermelho, meu tio (que durante minha calorosa recepção evadiu-se discretamente) estava trabalhando com alguns produtos cuja milagrosidade minha vó garantia de pés juntos, e várias outras novidades cuja importância só existia na cabeça da minha querida avó. A velha Dona Irene de sempre, capaz de passar horas a fio calculando de cabeças centenas de formas de pagar as contas da semana, quando na prática, só existe uma única forma.
Já estava adormecendo quando me dei conta de que toda essa retrospectiva familiar havia me feito esquecer do meu encontro com Valentina. Mas, cá pra nós, o que viriam a ser vinte e quatro horas de atraso quando se possui a eternidade?
- Victor, você realmente adora essa condição ilusória de simples mortal, não é?
- Cala a boca, velho! Vamos dormir que amanhã o dia promete!
- Não se intimide com minha experiência... Eu admiro fortemente essa sua habilidade de sentir cada pequena fração da própria existência.
- Ehr... E de que adianta existir se a sensibilidade da própria existência não estimula o instante seguinte?
- De fato.
- Agora chega dessa conversa interior! Além de estranho, não estou com paciência para ser analisado pela vozinha de dentro da minha cabeça. Segura tua onda, coroa!
| Achei |
sexta-feira, 6 de novembro de 2009
Capítulo 6
Mais adiante, são postos a conviverem com outros indivíduos de faixa etária próximas às suas. São induzidos a aprender e conciliar informações incompletas que cada um possui. As lacunas existentes entre verdade e ilusão abrem caminho para a especulação sobre coisas que não possuem certeza comprovada. No meio dessa experiência alguns tomam ciência de que alguns entre eles são diferentes quanto ao sexo, o qual, por um tempo, continua a ser levado como indiferente. Até que o próprio corpo se encarrega de diferenciá-los por completo. É quando os meninos começam a comentar seus conhecimentos sobre as diferenças femininas. No começo, comentários de deboche, ao que evolui para comentários de desejo sobre o que ainda é desconhecido. Fazendo com que alguns sintam-se excitados a narrarem acontecimentos exagerados ou imaginários sobre fatos que realmente aconteceram. Jovens divagando os devaneios da imaginação humana, estimulados pelos hormônios. Rapazes inventando histórias sexualmente surreais sobre excitações e orgasmos. Beijos roubados, mãos ousadas, parceiras enlouquecidas...
As moças são mais românticas nos comentários. Ou não? (discordo pessoalmente dessa afirmação. Mas, como pessoa de boa reputação, sou obrigado a sustentar tal verdade).
É também nesta fase que os rapazes se dão conta de que agir de forma inovadora, de acordo com os padrões impostos pelos grupos sociais que os envolvem, os tornam mais vulneráveis ao olhar desejoso das moças. E aí é cada um por si. Cada qual que invente suas técnicas de conquista baseadas nas informações, verídicas ou não, relatadas anteriormente pelos seus amigos. Desejam por tortuosos meses aquele primeiro toque entre sexos opostos que une os lábios de ambos num beijo romanticamente inesquecível. Quando envelhecemos nos damos conta que essas histórias aconteceram de formas muito diferentes ao que especulávamos anteriormente. Entre alguns de nós, de formas bem mais surreais; Uns sentiram isso apenas a alguns toques mais adiante, outros, só vieram a sentir isso com o seu próprio sexo, mas até então era inadmissível comentar isso até consigo próprio. E por falar em admissão, recordo-me hilariamente dos meus desejos e anseios infantis, quando os relaciono com minhas experiências atuais. Lembro quantas noites passei imaginando qual seria a sensação de beijar os lábios de uma garota. A euforia desvairada que inundava minha imaginação era entorpecedora, mas a idéia de tornar público a minha inexperiência me levava a criar infinitas situações, obviamente falsas. Os outros sempre estavam a muitos passos à minha frente quando, no meu íntimo, comparava minhas reais experiências com as que eles relatavam. Parecia que todos já haviam passado para uma nova fase da vida enquanto eu ainda permanecia estático, fingindo estar com eles em meio aos meus falsos beijos e parceiras. Porém, quando finalmente adentrei nesse mundo de sensações, pude perceber que muitos dos que contavam vantagem, estavam quilômetros atrás de mim. Eu estava tentando enganar pessoas as quais também tentavam me enganar. Antes era muito aceitável comentar sobre quão instigante seria ter duas bocas chupando seu pênis, vários corpos femininos, completamente nus, friccionando o seu. Enquanto todos se enganavam, os mais profundos desejos eram tolerados. Hoje, quando não mais há necessidade de inventar experiências, divirto-me com a repreensão de certos adultos bem vividos quando comento já ter compartilhado meu leito com três ou mais mulheres. Não entendo mais como podem haver pessoas que sintam ápices orgásticos só com o contato visual de um outro indivíduo que o agrade. Ou eu me tornei dormente aos caprichos da carne, ou decaí ao submundo mais absurdo da perversão.
Em algum momento da vida, fingimos ou conhecemos pessoas que fingiam ter alguma experiência com as drogas, ilícita ou não. Para aparentar ser mais descolado ou, nos casos mais cultos, demonstrar maior responsabilidade, fingindo possuir o controle daquilo que estava fazendo com maturidade. Depois do primeiro porre de álcool ou da primeira chapação de maconha, percebemos que ao usar essas coisas estamos adquirindo "use o termo que sua maturidade quiser utilizar para amenizar", mas jamais traremos para nós maturidade em questão. Você fica visivelmente afetado, mostrando a verdadeira face da personalidade. Ser maduro é fingir estar longe das interrogações da vida, quanto mais sério e respostas você fingir ter, mais maduro você aparentará aos olhos de quem vê. E aí está o perigo das substâncias entorpecedoras; Já no estágio de entorpecimento é difícil criar pequenos detalhes que sustentem uma ilusão. O tempo passa numa fração que ainda não estamos acostumados a lidar. Somos instruídos desde cedo que o uso de entorpecentes é algo errado, coisa de gente fraca que não possui boa índole. Porém, de acordo com o que expliquei anteriormente, é mais certo confiar num indivíduo consciente do seu entorpecimento do que naqueles que esbanjam entorpecimento enquanto escondem-se nas entrelinhas da própria sobriedade.
Os poucos indivíduos que não ousam se expor ao entorpecimento preenchem suas milhares de horas de vivência a provar diariamente que são as corretas. Este vago espaço de tempo perdido no universo que vivemos possui regras; uma delas é jamais perder o controle sobre o seu interior. Jamais deixe que suas verdades mais íntimas caiam no conhecimento de outras pessoas. Cada um vive o seu próprio espaço de tempo perdido, perdendo o seu tempo para provar aos outros que não está vivendo em um caminho diferente. E intimamente sabe que está.
Já possuo alguns tantos anos de vida. Já passei por muitas experiências e muitas outras ainda irei passar. Mas, assim como quando ainda era uma criança e desafiava minha mãe enganando-a para dormir mais tarde, hoje, preencho alguns momentos da minha vida adulta com o entorpecimento para prolongar minhas noites e, longe do conhecimento de qualquer outra mentalidade, autenticar minhas verdades comigo mesmo. Faço relatórios de todas as verdades que comprovei em todos esses anos. E me delicio comparando tudo com as expectativas anteriores ao momento no qual as comprovei. O segredo para a felicidade mortal é estar sempre especulando as próprias reações buscar surpreender-se com tudo que for novidade. E é assim que me mantenho determinado a viver eternamente. A sensação de alegria dos seres humanos é apenas a conseqüência de fatos que de alguma forma os beneficia. Por causa do breve período de tempo que lhes é dado para desfrutar da vida, são instigados a desejar a eternidade das coisas; felicidade eterna, amor eterno, saúde eterna... Já percebeu a monotonia que esses desejos causariam a um ser fadado a viver eternamente? A conseqüência seria o desejo de um fim. E é neste dilema que eu me encontro. A idéia de estar tudo bem sempre, sem nenhuma possibilidade de perder tudo para o tal "sempre" é a única coisa capaz de destruir uma mentalidade eterna. Normalmente, os humanos não nascem evoluídos ao ponto de preservar sua mente. Isso se faz parasitando novos corpos materiais quando o nosso já está velho demais. Nós, vampiros, podemos absorver a mentalidade dos seres que possuímos, meio que aprisionamo-los ao inconsciente, ou simplesmente os destruímos, absorvendo todas as suas memórias. Para quem compreende o básico de computação, imagine um vírus capaz de invadir todos os sistemas e de auto atualizar-se. O caminho que utilizamos para transmitirmo-nos são as veias. Está tudo no sangue. Todas as informações são facilmente transmitidas pelo fluxo sanguíneo. Porém nem sempre o contato do vampiro se dá no intuito de trocar corpos. A troca dos corpos não é assim tão corriqueira. O mais comum é sugarmos informações (memórias) das vítimas para que consigamos sentir anseios mortais na nossa existência imortal. Vampiros jovens ainda iludem-se em deleitar-se de lembranças de felicidade e outros sentimentos parecidos. Eu busco todas as coisas trágicas e depreciativas, que beiram o insuportável. O anseio pelo fim dos mortais me nutre do desejo de ver mais um raiar do sol, mais uma onda quebrando nos corais, mais um último suspiro de paixão exalado por mais uma parceira que, cedo ou tarde, suspirará seu último suspiro, sendo dessa vez, de vida.
A inconsciência sobre nossas "últimas vezes" nos faz não aproveitarmos com maior prazer àquela determinada vez. O último trago do cigarro seria bem mais longo se a pessoa soubesse que seria o último... É por isso que nós, vampiros, não tardamos muito a compreender que a impossibilidade de um fim repentino nos causa um vazio extremo. O fim torna-se delicioso e excitante. Mas, quem em plena consciência conseguiria dispersar a própria existência? É muita presunção achar que alguém é capaz de se matar. Seres humanos, no máximo, induzem a própria morte. Mas nenhum consegue desmembrar todas as memórias por livre e espontânea vontade. Deixar de existir conscientemente, por mais que isso possa parecer confortável depois de uma longa existência de sofrimento é uma tarefa impossível para a mente. Se os seres humanos soubessem induzir suas mentes a novos corpos, iriam enganar a morte tão bem nós, vampiros, fazemos. Não é por desejo de continuar vivo, é apenas o instinto de existência de cada mente.
A única forma de fazer-se destruir é aprisionando a mente no que a permite existir: um corpo. E é este corpo que, no seu último suspiro vital, desfaz a mente. O corpo é não somente o berço, como também o sepulcro da existência.
Sou um vampiro jovem, com apenas uma troca de corpo. Tenho algo em torno de 144 anos mortais. Mais adiante comento sobre os primeiros 120 anos pertencentes ao meu corpo original. Este primeiro corpo que invadi possui uma curiosidade que me tornou diferente dos demais vampiros. Os primeiros vampiros surgiram naturalmente no meio dos seres humanos. Surgiram como aberrações que se adiantaram várias etapas no desenrolar natural da evolução humana. Houve um período de pausa na ocorrência dessas anomalias evolutivas e os vampiros que souberam usar suas habilidades, superando o desejo pelo fim, conseguiram viver muitos séculos, se é que ainda não vivem. Desde os primeiros vampiros até então não havia nenhum relato de duas mentalidades imortais existindo mutuamente num mesmo corpo. Uma sempre tende a dominar a outra, o que acaba na destruição de uma ou na demência de ambas. O que aconteceu comigo, logo na primeira troca de corpo, por sorte, ou azar, havia um vampiro natural (mais uma rara anomalia dos tempos) cujos poderes ainda não havia percebido. Seja como for, não houve conflito, muito pelo contrário, houve um fascínio imediato de ambas as partes. Propusemo-nos a existir em conjunto. Enquanto um estivesse ativo, o outro aceitaria permanecer inativo, "assistindo" a atuação do ativo em questão. E assim estamos até hoje, trocamos de posição quando bem nos convém.
No entanto, há um problema: a mente que havia nesse corpo possui uma natureza altamente destrutiva. A sede por sangue vai além de apenas nutrir-se com novas memórias. "Ele" saboreia o sofrimento imediato das vítimas, principalmente o sofrimento psicológico ao qual as expõe. Desde nossa junção fui obrigado a participar de cenas angustiantes de torturas físicas e psíquicas que ele proporcionava as nossas vítimas. O que me fez não repudiá-lo por isso foi um interesse em comum a ambos: pessoas desprezíveis. Assim como eu, ele só "devora" pessoas com o conteúdo mais desagradável possível. Ele ainda não se deu conta da magnitude de possuir uma vida eterna, busca o desagradável apenas por vingança aos seus traumas e, no nível mais profundo da sua mentalidade, sei que ainda estão estampados anseios e desejos mortais.
Os anseios mortais são as melhores drogas para um imortal. Entorpecer-se durante a imortalidade com temores mortais é a única coisa que nos traz desejos verdadeiros pelo amanhã.
| Achei |
quarta-feira, 16 de setembro de 2009
Lembrança 5 - Felicidade
Já no ápice da adolescência, todas as lembranças das humilhações que havia sofrido sussurravam-lhe falsas verdades sobre si mesma. Ela estava amaldiçoando todas aquelas pessoas que destruíram seus sonhos com a dureza das palavras. Por mais que repudiasse todos aqueles escrotos que vomitavam discórdia em cima dela, sabia que estava se tornando igual a eles. Sem saber o que fazer para conter a própria ira, ela decidiu buscar ajuda com os pensadores do submundo. A medida que chegava mais perto de entrar em contato com eles, os dias se fechavam em angústia.
Quando finalmente conseguiu fazer contato com aqueles que, sentia ela, serem sua última alternativa para salvar sua sanidade da escuridão total, sentiu um breve cessar das investidas dos seus demônios interiores. Foi então que afirmou para si que estava no lugar certo.
- Boa noite, meu anjo! Entre e sente-se de frente a mim, por favor.
Guiada por uma repentina euforia, ela seguiu as palavras daquele misterioso senhor negro. Ela estranhou ouvir a entonação gentil e cheia de classe vinda daquela figura humilde de vestes esfarrapadas.
- Não se deixe enganar pelos olhos, meu anjo! Por tanto sofrer, seu inconsciente induziu sua consciência a crer em determinadas ilusões.
Assim que ele terminou de pronunciar aquelas palavras, tirou o cachimbo da boca e levantou a cabeça para baforar, revelando os olhos leitosos.
- O verdadeiro cego não é aquele que não enxerga. Mas, aquele que finge não ver.
Ela ficou um pouco atordoada com aquela visão e retraiu o corpo discretamente.
- Não tenha medo de mim.
- Me desculpe, eu não...
- Não se preocupe, meu anjo. Você ainda está cega. Segure minhas mãos.
Júlia observou as mãos trêmulas daquele velho senhor tateando pelo ar procurando as suas. Ela agarrou as mãos dele com rapidez para não perceber o próprio tremor.
- Agora feche os olhos e concentre-se apenas no que irei falar.
Começou a consentir com a cabeça, quando se deu conta da deficiência do senhor e pensou em concordar verbalmente, no momento em que ele começou a falar como se acabasse de ler seus pensamentos.
- Meu nome é Francisco. É um prazer enorme finalmente nos encontrarmos.
- Você quer dizer que sabia que isso iria acontecer?
- E você não? Seus sonhos estão sempre trazendo você ao meu jardim, esqueceu?
- Eu não estou entendendo.
- Abra os olhos da sua mente e verá...
Júlia abriu os olhos e mais uma vez se viu na saleta da cabana com o senhor de frente para ela segurando suas mãos.
- Não são esses olhos que estou falando, deixe-me lhe ajudar...
O velho Francisco elevou uma das mãos ao rosto de Júlia e fechou suas pálpebras.
- Adormeça, meu anjo.
Ela sucumbiu num sono profundo imediatamente. Estava naquela pegadinha dos sonhos onde poucos segundos dão a impressão de anos. Quando as imagens começaram a se formar, ela pôde perceber onde estava. Ela já havia sonhado várias vezes com aquele jardim e o sonho sempre acabava quando avistava um jovem negro, de sorriso cativante e olhos verdes, acenando para ela da janela de uma choupana. Desta vez era diferente, o jovem acenou e as cores permaneceram, ela estava indo em direção ao rapaz.
- Agora você abriu os olhos, meu anjo!
Aquela entonação simples e culta novamente... Só poderia pertencer a uma pessoa!
- Francisco, é você?!
- Por que o espanto, querida? Eu não agrado você?
- Não é isso! É que... Por que você está tão diferente?
- Você tem certeza que sou eu?
Neste momento Júlia olhou para as próprias mãos e pernas e percebeu que estava imunda, vestindo trapos e cheirando mal.
- O que é isso? O que está acontecendo?
- Calma, meu anjo! Esta é você. Esta é a sua imagem que você mesma criou guiada por todos os seus problemas.
- Eu estou horrível, eu quero sair daqui!
- Independente de onde você vá, esta será sempre você caso não siga em frente. Você confia em mim?
Ela levou as mãos à boca na tentativa de segurar o choro, por não saber o que responder àquela pergunta. Jogou-se no colo de Francisco, que veio ao seu encontro, esquecendo de vez a timidez perante aquele rapaz misterioso.
- Olhe, você consegue ver aquele obelisco?
Júlia olhou na direção que ele apontava e avistou uma espécie torre gigantesca de cristal que irradiava uma luz azul incandescente.
- Que cor ela está emitindo?
- A-azul...
- Ótimo, vamos seguir!
Francisco segurou firme o braço de Júlia e a conduziu até os pés do obelisco, tratando de confortá-la com suas sábias palavras durante todo o percurso.
- Muito bem, meu anjo. Agora você precisa olhar para o alto e esperar pelo sinal. Assim que lhe for dado, você terá direito a um pedido ou resposta para qualquer tipo de pergunta.
Ele recuou e ficou olhando Júlia de longe, com seus olhos verdes que jorravam simpatia. Ela levou os olhos até o ponto mais alto que sua visão podia enxergar e um raio de luz muito forte penetrou diretamente em sua visão, causando cegueira imediata. Ela sabia que aquilo era o sinal que Francisco havia avisado. Sentiu o corpo todo enrijecer e mentalizou seu pedido. Imediatamente todos os sons cessaram e a o raio de luz que a cegava diminuiu gradativamente sua intensidade, fazendo a visão de Júlia retornar. Olhou para Francisco e pela primeira vez ele estava com uma expressão de preocupação. Voltou os olhos novamente para a torre de cristal e percebeu que toda a estrutura estava se desfazendo em pó a partir do topo. O pó irradiava o mesmo tipo de luz de antes, porém assumindo formas similares a estrelas, borboletas e várias outras formas delicadas que encantavam Júlia. Ela sentiu o corpo cair ao chão e o pó brilhante envolvê-la fazendo-a flutuar até o topo.
- Acorde, meu anjo! Por que choras?
Ela abriu os olhos e estava novamente na velha cabana, desta vez, caída aos braços do velho Francisco. Estava em choque e não conseguia fazer nada além de soluçar.
O cheiro delicioso do café tomou conta da cabana e Júlia despertou do transe. Francisco trazia lentamente duas xícaras de café caseiro recém coado. Apesar de estar novamente com os olhos cegos, desviava-se dos obstáculos como se os estivesse vendo claramente.
- Beba, meu anjo! Vai te acalmar.
Ela tomou alguns goles, mas não conseguiu conter a curiosidade.
- Francisco, o que foi aquilo que aconteceu? Você estava lá, certo?
- Queria eu compreender!
- Você também não sabe?
Ele riu calmamente e perguntou:
- Você poderia me revelar qual foi o seu pedido ou pergunta?
Ela hesitou um pouco, suas bochechas coraram rapidamente. Respirou fundo, arregalando os olhos e respondeu:
- Pedi para que as pessoas parassem de ser como são, principalmente as que tanto me machucaram. Que fossem felizes e não perdessem o tempo destruindo a felicidade dos outros.
Ao ouvir essas palavras Francisco suspirou e levou as mãos aos olhos cegos.
- Era isso que eles procuraram por muito tempo, meu anjo! Alguém que na inocência maltratada soubesse valorizar o amor. Você renovou as esperanças para nossa evolução.
- Isso é bom?
- Isso é ótimo! Mas, me responda uma coisa. Você realmente abriu mão de todas as possibilidades de pedir o que quisesse para pedir a felicidade alheia, por livre e espontânea vontade?
- Com certeza, Francisco! Eu compreendo que minha felicidade só será verdadeira se as pessoas ao meu redor forem tão felizes, ou mais, quanto eu.
- Estupendo! Fico muito feliz por não ter perdido meu tempo com você. Agora me deixe lhe adiantar algo...
- Pode seguir.
- Num determinado momento da sua vida, um ser sedento por destruição cruzará seu caminho. Apesar da primeira impressão, não se deixe enganar. Ele sabe valorizar a felicidade tão bem quanto você. Porém ele próprio decidiu se privar dela para garantir uma evolução positiva da nossa espécie. De fato, já não é um de nós. Mas não tema, pois sua virtude é justamente a fraqueza dele. A felicidade é capaz de destruir sua eternidade. Castigo ao qual foi aprisionado.
- Uma pessoa que não pode ser feliz?
- Um ser que abriu mão da própria felicidade para viver a eternidade consumindo todo tipo de amargura. Não o julgue se não quiser ser julgada.
- Acho que compreendi.
- Então isso é só. Pode seguir sua nova vida, meu anjo!
- Francisco, posso fazer uma última pergunta?
- Mas é claro!
- Por que você se refere a mim como se eu fosse seu anjo?
- E não o é?
Júlia preferiu deixar as novas dúvidas que brotaram sem explicações por medo de trazer mais dúvidas. Saiu da cabana e sentiu uma espécie de Déjà Vu ao olhar para a janela e ver o jovem Francisco acenando para ela numa rápida fração de segundo.
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terça-feira, 15 de setembro de 2009
Capítulo 5
Apesar da obsessão demoníaca que espreitava meu interior, as lembranças de cada detalhe sobre ela preenchiam meu corpo com uma espécie de euforia angelical. Até suas grosserias verbais e visuais rodopiavam nos meus pensamentos causando discretos suspiros, os quais compartilhei com cigarros, Bob Dylan e a luz da lua. Cada Sol que surgia no horizonte trazia o gosto sufocante da saudade. Sentia-me estranhamente violado pelo meu próprio ato.
Quando já estava ouvindo a loucura parada, batendo à porta, entendi que ela estava a minha procura. O toque do celular quebrou o silêncio da casa, acompanhando os batimentos do meu coração que aceleravam gradativamente. A princípio, hesitei atender imaginando que suas intenções não seriam muito amigáveis, visto que a deixei para descobrir suas novas habilidades e necessidades sozinha. Acabei por atender lá pelo quinto toque. Estava certo. Ela me amaldiçoou com todos os espinhos verbais de sua ira lingüística. Pensei em sugerir que ela formalizasse um dicionário da língua maldita, seria sucesso absoluto entre os mais intolerantes.
Assim que a eloqüência dos xingamentos foram cessando, Valentina se conteve um pouco entre resmungos e suspiros, calou-se por alguns segundos e, numa espécie do que me pareceu ser um soluço, perguntou:
- Quando?
Surpreso pela indefinição da pergunta, fui obrigado a fazer uma outra:
- Quando o quê?
- Quando é que tu vai dar as caras novamente?
- Assim que você me convidar, basta escolher o lugar.
- Eu tô me mudando pra outra cidade. Pode ser lá?
- Onde seria esse "lá"?
- Eu tô indo morar em Recife, dá pra me encontrar lá daqui a três dias?
- Por que tanto tempo?
- Meu filho, tu tá em Porto Alegre, e por mais que tu tenha várias habilidades eu descreio na hipótese de tu conseguir se tele transportar. Fora que eu não tô com saco pra arrumar a mudança sozinha. Contratei uma equipe de decoradores pra dar um grau no meu novo apartamento...
- Nossa! Você se adaptou realmente bem com as novas habilidades, hein?
- E você ainda não viu nada!
Depois de me despedir, desliguei a chamada e sorri ainda olhando para o visor tentando imaginar quais meios ela havia usado para me localizar, já que eu cuidava tão bem em não deixar rastros. Mudava de número de celular a cada 3 dias, sempre usando uma identidade nova. Ela estava novamente me surpreendendo.
Os três dias que se sucederam foram dedicados a uma exclusiva mulher que secretamente - ou nem tão secretamente - muito me interessou naquele período em Porto Alegre. Nas primeiras vinte e quatro horas eu estive tentando localizá-la pela minha maneira preferida, o olfato - o cheiro das pessoas permanece nos lugares várias horas, mesmo depois que estas tenham ido embora. Encontrei-a já no final da noite nas proximidades da UFRGS, me contive apenas a observá-la. Observar mulheres sem que estas percebam sua presença é algo magnífico. Nem toda a maquiagem do mundo consegue esconder suas características mais íntimas. Deve ser por isso que a natureza se encarregou de fazê-las mais atentas, de modo que ninguém as observe despercebidamente. O segredo do charme feminino é o desvio da atenção de suas intimidades para suas superficialidades. Não necessariamente a futilidade. O que elas usam para distrair a atenção é exatamente o que vai promovê-las em charmosas ou meras vadias. Mulheres são seres que vivem se equilibrando numa corda tênue, onde podem cair num mar de mistérios extremamente cativantes ou numa fossa rasa de decepção.
O segundo dia eu deixei que ela percebesse minha presença, quis ouvi sua voz direcionada a mim pela última vez.
Estávamos no mesmo PUB, mas ela ainda não havia sentido minha presença, então fui ao bar comprar uma cerveja e na volta cruzei o seu campo e visão. A partir desse momento começou o joguinho onde ela fingia que não sabia que eu a desejava e eu fingia que tudo aquilo era coincidência.
Essa história que revelo só agora fora o motivo de começar a transcrever toda a minha trajetória. Tentando manter meu segredo oculto para o mundo, acabei me apaixonando por uma mulher comum e concordando em expor um pouco do meu talento com as palavras. Até o nosso último momento juntos, me contive no meu disfarce de pessoa comum. Não usei nenhuma das minhas habilidades para induzí-la aos meus desejos. Provavelmente isso que me fez ficar tão vulnerável aos seus encantos. Seja como for, foi escrevendo que tentei atingir os seus sentimentos. Quando estávamos frete a frente eu me sentia completamente aberto, era como se ela estivesse enxergando todos os meus segredos expostos como em uma galeria de arte. Jamais consegui falar todas as coisas bonitas que ela fazia meu interior gritar. Quando olhava em seus olhos - que estavam, incrivelmente, sempre a me encarar - meus ombros se contraíam e meu sangue transbordava por todo o corpo causando uma paralisia imediata. Apesar das minhas várias habilidades - sobre-humanas ou não - não soube como reagir com aquela situação. Infelizmente não consegui sentir na prática, mas na teoria eu estive perdidamente apaixonado por aquela criatura. E foi guiado pelo meu fracasso sentimental que segui para Curitiba, para dar um ar novo aos meus pensamentos, e acabei por cruzar o caminho da minha mais nova obsessão: Valentina.
Durante toda a noite no PUB meus olhos não paravam de contemplar suas caras e bocas, a bebida já estava chegando ao auge do seu encargo quando uma das suas amigas sugeriu de irmos embora. Agradeci um milhão de vezes por aquela sugestão, mentalmente, claro.
Obviamente, me dispus a acompanhá-las até em casa como exige uma boa educação. Dentro do táxi eu usei de cada curva fechada e buracos no asfalto para abraçá-la mais forte e sentir mais de perto o cheiro dos seus cabelos - exalavam ferormônios de um jeito que tive que travar batalhas comigo mesmo para não revelar os meus demônios ali mesmo. Chegando ao destino, ela me convidou para entrar, por alguns segundos eu relutei - charminho, claro - mas acabei por aceitar. Assim que entramos em seu quarto, a amiga caiu na cama e desabou em sono profundo. Ela então me sugeriu que sentasse no cantinho da cama aos pés da amiga. Fiquei lá sentado e observando ela descalçar os sapatos e cruzar as pernas - isso deve ser estratégia feminina, só pode! O simples ato de cruzar as pernas faz qualquer homem sucumbir nos mais diversos devaneios. Quando finalmente acordei do meu deslize hormonal, revelei que estava de mudança e comentei sobre os meus planos para a minha "vida normal". Ela me tratou com muita gentileza e atenção todos os minutos que estivemos lá. Deu-me alguns conselhos e esperanças que - apesar de passar longe de ser o que eu estava desejando àquele momento - me serviram muito bem. Ela também comentou sobre um livro de vampiros - sinal que ela já estava lendo essas coisas que eu escrevia. Perigo! - do autor André Vianco. Ri por dentro, duvidando um pouco da veracidade que poderia haver em tal livro, mas adorei saber sobre a admiração dela por "esses" seres. Enrolei um pouco na conversa para não ter que dar maiores satisfações sobre as coisas que escrevia, sabia que aquilo era uma armadilha para que eu acabasse dando com a língua nos dentes e revelasse as coisas que ela já percebera por alto. Ao fim da conversa anunciei que deveria ir embora. Ela concordou com um certo desapontamento no olhar - e que olhar! - e me acompanhou até a porta. Atravessei a rua e vi seu vislumbre esmaecer por trás da fumaça do último trago daquela noite.
Por mais frustrante que essa experiência possa parecer, foi uma das mais reveladoras até então. Determinadas paixões, mesmo que não consumadas, podem se concretizar em um amor puro e incondicional. De uma forma mais direta, quem realmente ama quer apenas amar sem se importar se é também amado. O sentimento verdadeiro é aquele onde o indivíduo valoriza ser possuidor do sentimento e não possuir a pessoa que crê amar.
Assim que os primeiros raios do terceiro dia invadiram as janelas do quarto, tomei coragem para levantar, lavar o corpo e preparar um café decente.
Depois de me vestir e deixar as malas na sala fui dar um último passeio pela cidade, de skate, para me despedir dos postes, muros e sacadas que por muitos meses calaram sobre os meus segredos noturnos.
O meu último desejo antes de entrar no avião era olhar para trás e avistá-la acenando um adeus ou coisa assim, mas não olhei para trás. Fechei os olhos e murmurei para mim mesmo:
- M.J., eu a amo.
Assim que os pneus decolaram, comecei a pensar nessa minha coleção de amores. Possuo uma vastidão de amores, é verdade. E isso é muito esquisito para pessoas comuns, por o tempo ser muito curto para elas o mais racionalmente correto é amar uma única pessoa e esperar que exista uma continuação divina após a morte. Senti-me um canalha pensando dessa forma - as vezes eu penso pelo ponto de vista de pessoas comuns. Foi então que me dei conta que as pessoas que amo não tem nada do que reclamar. Aquilo que me dei conta com a experiência com M.J. me serviu como uma luva nesse momento. Já que nada cobro por amar as pessoas, elas nada estão perdendo com isso, o único problema é quando eu as deixo cientes disso... Muitas pessoas se sentem donas das pessoas que as amam. Isso não tem a menor base racional. Mas uma coisa é certa, quem ama se faz presente sempre que sua presença é desejada, disposto a tratar da melhor forma possível e oferecer toda a felicidade - que no meu caso é um alívio, visto que a felicidade me destrói com mais rapidez que o oxigênio.
- "Atenção passageiros do vôo 6738, preparar para a aterrissagem".
Um último solavanco e a aeronave estava parada no pátio de desembarque. Assim que saí e o ar quente entrou pelas minhas narinas, senti um cheiro que há anos estava adormecido nas minhas memórias. O céu estava vemelho-alaranjado e o gosto de ferrugem assombrava novamente minha boca.
Sem perceber, um sorriso se projetou nos meus lábios e um velho conhecido acordou depois de vários anos de sono.
- Recife... Voltei!
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segunda-feira, 3 de agosto de 2009
Quem nasceu primeiro?
Eu cheguei numa conclusão sobre quem nasceu primeiro, mas pra saber você tem que decifrar um enigma que criei:
"Quem se ludibria com minha beleza, cega os olhos para meu conteúdo. Para descobrir quem eu realmente sou, é preciso me livrar dessa prisão visual compacta."
| Achei |
segunda-feira, 6 de julho de 2009
Capítulo 4
Olhei dentro dos seus olhos castanho-amêndoa, fui me aproximando com delicadeza ao mesmo tempo no qual levava minhas mãos ao seu rosto. Ela nem terminou de balbuciar o final da frase que começara; sucumbiu num suspiro longo e profundo.
- Muito bem, Valentina. Presentearei você com uma memória extraordinariamente bela, de tão trágica.
Ela consentiu com um olhar desolado e meigo, encharcado de lágrimas. Só então eu puxei o seu corpo contra o meu e entreguei-lhe meus lábios. Ela beijava com uma voracidade bastante peculiar, oscilava os lábios demonstrando temeridade ao mesmo tempo em que encarnava uma besta esfomeada que, após muitos dias, saboreava a primeira presa. Causei pequenas incisões nas nossas línguas e iniciei a transição de memórias. Dessa vez eu não absorvi nenhuma, apenas concedi-lhe as habilidades necessárias para tornar-se uma de mim, juntamente com um presente que, há muito tempo, havia escondido…
Estava caminhando por um dos becos da minha cidade natal, quando percebi a movimentação de outras crianças. Estavam muito animadas amontoadas em volta de uma lata de leite velha. Havia muito barulho ali, as crianças gritavam e riam aos montes. Curioso pelo que estava acontecendo, fui me aproximando lentamente. Quando estava à meia distância, elas saíram correndo para todos os lados gritando com muita euforia. Ainda sem entender o que estava acontecendo, fui me aproximando da lata para descobrir o que haviam deixado embaixo dela. Quando estava prestes a empurrar a lata com o pé escutei um grito vindo de trás:
- SÁI DAÍ, OTÁRIO! TEM UMA B…
O que sucedeu foi uma espécie de explosão implosiva - por mais contraditório que isso possa parecer - a qual eliminou qualquer ruído que meus ouvidos pudessem captar. Senti meu corpo sendo arremessado para trás e uma força invisível puxando meu rosto para o centro da explosão. Neste momento, até o tempo havia parado, apesar de sentir como se houvesse transgredido a barreira do tempo e estivesse perdido a infinitos anos luz no futuro. Não havia nada exceto o preto. Ao que minha consciência foi se restaurando, uma voz de mulher adulta – suave com timbre levemente grave – começou a narrar uma história que ao mesmo tempo no qual me assustava, me confortava.
- …e o menino da lua deveria retornar. Ele deveria mostrar para si mesmo o que realmente o importava. E tudo isso o estava esperando no seu próprio reino, da lua.
Olhava ao meu redor, ainda assustado por não haver nada, exceto a escuridão que me envolvia. Aos poucos pequenas partículas de pedra foram se aglomerando e formando um caminho, o qual segui. A cada passo que eu dava, o caminho se desfazia às minhas costas e se recompunha à minha frente. Haviam leves pausas na voz que narrava todos os passos que eu dava, e durante essas pausas uma música com toques artificiais de sintetizadores invadia minha mente. Era de uma sombriedade indescritível toda aquela escuridão, a música e o único caminho estreito a minha frente. Uma sensação horrível de desolação consumia meu interior, porém, a visão do caminho me causava euforia e esperança – tinha certeza que mais adiante eu encontraria tudo o que precisava para me confortar.
- Siga, menino! Vá rumo ao centro! Está tudo lá, esperando por você.
Por mais que tentasse correr, meus pés não me obedeciam. Foi quando percebi que até então não havia percebido meu corpo. Eu não existia mais! Meu corpo não estava mais materializado. Havia apenas vácuo onde deveriam estar meus pés, minhas mãos… Entretanto, eu conseguia tocar em tudo. Não conseguia enxergar, mas estava tudo no lugar.
- Não se deixe levar pelo que seus olhos o limita! Você é muito importante para o funcionamento da lua, menino. Continue!
Por mais intrigante que os comentários da voz fossem, eles me confortavam bastante. Continuei caminhando até avistar, mais adiante, um pequeno planeta. Era tão pequeno que parecia não caber mais de uma pessoa lá. Chegando mais perto, observei que havia uma redoma no chão. Havia uma luz tênue que saía de dentro dela. Assim que coloquei o primeiro pé no planeta, o caminho se desfez completamente às minhas costas e todas as partículas que o formavam desapareceram. Aproximei-me da redoma e quando estava prestes a toca-la, a voz retornou:
- Faça agora a sua escolha, menino. Você pode viver eternamente neste pequeno planeta comigo, e ser dono de tudo o que ele oferece – tudo o que sua imaginação possa imaginar – ou adentrar na redoma e limitar-se a viver eternamente com aquilo que você mais desejar.
Pensei um pouco e achei que a voz não era assim tão sábia… Eu poderia ficar no planeta e contemplar de tudo o que quisesse, inclusive aquilo que iria me ser servido dentro da redoma. Qual seria então a moral disso tudo? Quem seria estúpido o bastante a ter uma só coisa, quando se tem a escolha de ter tudo?
- Não se engane, menino! Fora você pode ter tudo que imaginar. Mas tudo que você imaginar, não será nada mais além do seu próprio reflexo. Dentro dessa redoma, você não terá o controle de nada. Entretanto, aquilo que você escolheu, será real e eterno…
Apesar de muito complexo para minha pouca idade, entendi o raciocínio. Observei a redoma e a transição de imagens de acordo com o que eu desejava. Num certo instante senti saudades da minha mãe, e a imagem dela apareceu dentro da redoma. Não só a imagem da minha mãe, como também do meu padrasto e dos seus dois filhos. Eles estavam presos dentro de uma espécie de ampulheta e sentiam fome e tristeza.
- Ah! Agora você está pronto para decidir, não é mesmo?
Antes que eu pudesse terminar a transferência da memória, Valentina recuou a cabeça e desabou nos meus braços.
- Querida, isso foi muito para um só dia? Me desculpe, eu não…
- Cale-se! Você… Era você, não era?
- Não posso revelar, agora. Na hora certa você vai descobrir.
- Esse seu mistério me irrita, ao mesmo tempo em que me seduz!
- Não se preocupe! Em breve você irá compreender tudo, eu prometo.
- Você quer entrar?
- Com certeza.
Entramos no apartamento e ela me indicou a cama. Sentei-me demonstrando um pouco de vergonha – como ela conseguia fazer isso comigo? – e fiquei observando-a. Ela foi até a cozinha e voltou com duas xícaras de café. Sentou-se ao meu lado e não falamos mais nada até o último gole.
- Victor, você me convidou para um cigarro…
- Ah! É verdade… Onde estão meus…
- Não se preocupe com isso. Depois de toda essa loucura, preciso de uma droga mais forte que nicotina.
Ela encarou-me com um olhar fixo e ininterrupto enquanto despia minha camisa.
- Valentina, eu…
- Vai amarelar, broto? Um pedaço de mal-caminho desses com medo de uma pobre puta?
- Não é isso, eu acho que nós…
Ela me empurrou na cama e começou a despir minhas calças, fazia tudo sem tirar os olhos dos meus. Era uma sensação que, por séculos, não sentira.
- Você me ama. Não é, Victor?
- Amo.
- Ridículo! Você nem me conhece…
- Querida, o amor que eu sinto é meu. Independente do que você venha a sentir por mim. O que me faz amar você é a minha autodestruição.
- Não entendi bulhufas! Acho melhor você calar a boca antes que eu broxe!
Achei hilária a ironia e abri um sorrisinho cínico – desses de canto de boca.
- Então, vejamos se eu consigo fazer seu brinquedinho subir, querida!
- É assim que se fala, gato! Agora vem e me possui como nunca fez antes com uma mulher!
Não consigo nem me recordar como foi que tirei – ou rasguei - as roupas dela. O tesão estava escorrendo pelos nossos corpos na forma de suor. Apesar de um corpo delicado e pequeno, comparado ao meu, haviam imensas áreas de exploração para minhas mãos. Percorri todos os seus um metro e cinqüenta e poucos centímetros de sensualidade com língua e mãos. O gosto salgado do suor concentrado de hormônios me deixou completamente embriagado.
- Pára com esse banho de gato e me come feito homem, cara!
Bom, como tudo tende para a imperfeição, Valentina não poderia escapar da regra. Romantismo pra ela era tão necessário quanto ouro é para os peixes… Seja como for, arqueei-lhe as pernas num “v”, verticalmente perfeito, e penetrei sem nenhuma dó – as últimas palavras machucaram o pouco de humano que ainda restava em mim.
- Vai, gostoso! Me castiga bastante!
Esse negócio de conversar durante o sexo sempre foi um problema pra mim. Nunca consigo pensar em alguma coisa pra falar, acho que se abrir a boca, vou parecer um idiota. Então, me mantenho calado o tempo inteiro…
- Fala alguma coisa! Me diz o que você quer fazer comigo, seu demônio tesudo?!
Ok! Nesse momento a coisa complicou… Ela me pôs contra a parede. Descobriu meu ponto fraco sexual.
- Ehr… Eu…
- O que? Eu não tô ouvindo nada! Fala como homem!! Melhor, deixa o demônio que há dentro de você se expressar!!
- Cala a boca e abre a boca que eu tô gozando sua vaca!
Se pondo em posição, ela me lançou um olhar de reprovação e começou a falar:
- Também não precisa avacalhar, né? Tá pensando que eu sou o que, uma…
Gozei! Gozei anos de dormência de uma boa foda.
*gasp gasp*
- Filho de uma puta!!! Avisa quando vai gozar! Você não sabe o que é bons modos?
- E agora eu vou ter que discutir sobre bons modos com uma puta?
Nós paramos, nos encaramos e caímos na risada.
- Aceita um cigarro agora, Valentina?
- Claro, broto!
Peguei a carteira de cigarros, ofereci-lhe um e peguei um para mim. Acendi os cigarros e ficamos deitados fumando. Devo dizer que foi sexo digno de Deuses. E o mais divino disso tudo foi nosso comportameto - extremamente maduro, devo salientar - nos mometos seguintes: enquanto eu fazia rosquinhas de fumaça, ela as espetava com jatos retos de fumaça. Parecíamos, realmente, duas crianças que acabaram de descobrir o que era sexo.
Quando o dia estava prestes a raiar, me levantei da cama sem que ela percebesse e me vesti. Escrevi um bilhete e o deixei na penteadeira antes de sair:
“Você conseguiu chegar onde nenhuma outra jamais ousou caminhar. Quando quiser, basta me encontrar. Você saberá como e onde me procurar.”
Victor
| Achei |

