quarta-feira, 14 de julho de 2010

Capítulo 9

Quando finalmente abri os olhos, senti meus pensamentos irradiarem na forma de Valentina - meus sentidos ansiavam por suas distinções; meu corpo se dedicava inteiramente a desejar sua presença.
Levantei da cama e iniciei os procedimentos habituais de uma manhã saudável; acendí um cigarro, tomei meu café – preto, duas colherinhas de açúcar e temperatura rigorosamente calculada – e logo em seguida tomei aquele banho esplendoroso que nos leva a crer que todos os pecados do dia anterior desceram ralo abaixo.
Olhei para o horizonte e agradeci ao sol por presentear-me com um pôr-do-sol tão digno de filmes classe “Z” – desses que sempre levam o oscar de melhor porcaria do ano. Percebi que, apesar da imperfeição, não haveria de ser qualquer detalhe a arruinar os planos de mais uma noite especial. - Afinal, já acordar num paradoxo é a melhor coisa para uma boa sanidade mental.

Segui meu caminho a pé, aproveitando para arriscar na sorte e tentar encontrar uma amiga, que morava a alguns poucos quarteirões adiante. Ela vivia viajando entre a Europa, Rio de Janeiro e Recife. Porém, na última ocasião na qual nos falamos, informou-me de que passaria alguns anos pelo Recife. O que, pelos meus cálculos, indicava uma grande possibilidade de encontrá-la em casa.
Parei na área frontal do prédio, que dava direto para a janela da sala de estar, e chamei por seu nome. Ela demorou um pouco até que se mostrasse por entre as cortinas; Surpreendi-me ao perceber surgir também uma criaturinha minúscula ao seu lado.

- Oi! Quem é?
- Esqueceu de mim, Améllie?
- Ah! Desculpa... É que está muito escuro e não estou conseguindo enxergar muito bem.
- Sou eu. Victor Hugo! Posso entrar para conversarmos um pouco?
- VICTOR! Claro que sim! Vai dando a volta que eu vou abrir a porta.

Quando a porta se abriu e o primeiro traço do seu rosto apareceu, mal pude contemplar decentemente pois ela se atirou contra mim, num abraço bem forte, revelando grande surpresa e satisfação em me rever.

- Cara! Quanto tempo não nos víamos? O que você está fazendo aqui? Você estava em Porto Alegre, certo?
- Calma, Améllie. Vamos entrar que eu te explico toda a história…

Ela me conduziu ainda agarrada à mim – desde que nos conhecemos sempre houve essa proximidade física entre nós - o que me causou leves rubores e desejos impulsivos de agarrá-la da forma mais sexualmente agressiva possível.

- Pode se sentar aí na sala, espera enquanto eu pego o telefone. Louise tem que saber disso!

Sentei numa das poltronas e automaticamente acendi um cigarro. Entre a fumaça da primeira tragada surgiu uma criaturinha, meio tímida com minha presença. Só poderia ser aquela a qual vi ao lado de Améllie à janela. Antes que formulasse uma pergunta sobre a criaturinha, ouvi vários berros que vinham de onde Améllie estava. E lá se foi novamente a criatura…

- Achei essa porcaria, agora é só ligar e torcer pra que ela atenda…

Ela aguardava a resposta do outro lado da linha, enquanto arregalava os olhos e balançava a cabeça negativamente, demonstrando completa impaciência.

- Lou?! Olha, adivinha quem acabou de aparecer aqui em casa?

Antes que a resposta viesse, ela pôs no viva-voz e depositou o aparelho sobre o centro entre nós, sentando-se na poltrona oposta a mim.

- Não faço a mínima idéia… Quem é?

Perguntou com muita curiosidade a vozinha que saia do aparelho.

- Victor, pô! Victor Hugo!
- Teu ex?
- Credo, menina! Nem brinca! Victor Hugo… Victor, sabe?
- Victor… Victor que tava pelo sul?
- Ele mesmo!
- Ai, meu Deus! Manda ele esperar que eu tô indo aí agora, tá?

Améllie deu várias gargalhadas e gesticulou para que eu falasse.

- Oi, Louise! Quer dizer que você vai vir aqui? – Me digam, qual o sentido dessas perguntas retóricas que insistimos em fazer diáriamente?
- Com certeza, cherry! Não saia daí antes que eu chegue, viu?
- Pode ficar tranquila! Mas não demore muito pois tenho, logo mais, que encontrar com uma outra pessoa.
- Hmmm! Uma mulher, não é?
- Como você sabe?
- Meu amor! Você é praticamente um Don Juan… Paraguaio, eu diria… hahahaha! Agora deixe-me desligar pois preciso me vestir.
- Hein? – Mais uma pergunta retórica, dessas que usamos para mascarar ferimentos no ego.
- Até!
- …

Desliguei o aparelho com aparente constrangimento e corri os ohos lentamente até Améllie. Ela estava retribuindo meu olhar com muita animação, dava para sentir sua euforia através do seu rosto sem nenhum esforço. Usava um vestidinho preto caprichosamente curto, longe da vulgaridade, mas, impossível de não percebê-lo com segundas intenções. A forma natural com que ela se sentava e gesticulava fazia com que o pequeno vestido não desse conta de cobri-lhe os belos contornos das pernas e, num descuido mais grave, a visão ardente do seu sexo marcado na calcinha.
Durante toda a conversa fui obrigado a censurar meus olhos e reações instintivas para não criar nenhum clima desconfortável. Mas era inegável supor que ela já havia percebido meus olhares furtivos, visto que passara a cruzar as pernas de modo a dificultar minha mastigação ocular.

[sempre que uma mulher percebe estar sendo observada, simula naturalidade em seus gestos e palavras – o que a torna ainda mais artificial – porém, instiga ainda mais o desejo do observador, quando ela passa a privá-lo com essa explícita discrição.]

Não tardou muito até que aquela situação fosse interrompida por um assunto completamente fora do subjeto.

- Améllie, essa criaturinha se esgueirando pelos cantos…
- Ah! É a Artemis, não é linda?! – indagou enquanto pegava a criatura que estava atrás da sua poltrona.
- Heh? Acho que tô ficando maluco… Nem parecia um gato quando vi lá de fora…
- GATA! – exclamou Améllie.
- Eu posso segurar ela no colo um pouco?
- Melhor não! Ela é muito sentimental… – sussurrou enquanto levava Artemis ao chão.

Na primeira vez que vi, poderia jurar que aquela gata se parecia com uma pessoa toscamente pequena. Fiquei observando Artemis se afastar lentamente, encarando-me como quem acabou de ver um fantasma. Quando adquiriu uma certa distância de mim, soltou um miado estranho e saiu em disparada.

Em meio às gargalhadas envergonhadas ouvimos o som da campanhia, anunciando a chegada de Louise.

[evadir-se de um constragimento utilizando-se de outro chega a ser ridiculo.]

- É ela!

Améllie levantou-se sem sequer pensar e correu para abrir a porta. [será que ela tinha se dado conta que por pouco não vira minha presa?]

- Oi cherry!
- Menina, que demora! Vai entrando, ele tá esperando lá na sala.

As duas vieram ao meu encontro muito animadas, pareceu-me que com a presença de Louise, Améllie sentia-se segura novamente. [Vai saber!?]

- E então, Cherry, como você veio parar aqui? – perguntou Louise, ao tempo em que me beijava o rosto.
- Vamos nos sentar que a conversa é meio longa…

Améllie acenou para que Louise se sentasse ao meu lado e nos deixou a sós por um breve momento.

- O que diabos deu nela?
- E eu que sei?! – indaguei forçando um sorriso. [Sim, sabia!]

Maior que o meu constrangimento a essas alturas foi a surpresa ao ver Améllie retornar. E com um baseado de tamanho bem modesto para três pessoas.

- Caramba! Vocês também fumam? - Perguntei.
- Mas é claro! – respondeu Améllie num tom novamente animado.
- Ah não! Eu não fumo mais isso… A última vez que fumei eu…
- Cala a boca, Louise! Tu é a mais porra louca daqui e fica se fazendo de santinha… Ah, vá!
- Ai, Améllie! Também não precisa esculhambar!

Houve um momento de “PAUSE” na sala. Os três caímos na risada juntos.
Fumamos o enroladinho do satanás enquanto a conversa rolava solta em todos os tópicos possíveis. Expliquei os motivos que me fizeram retornar à Recife e comentei sobre minhas novas paixões.

[os motivos os quais foram explicados a Louise e Améllie não interessam ser compreendidos ainda. Adianto que Valentina não era o único. Talvez mais adiante eu explique]

Eu já estava bastante entorpecido quando ví meu reflexo no espelho do banheiro.

- Victor, acho que já é hora de nos despedirmos
- É o quê? – eu estava ouvindo vozes?
- tsc tsc…
- Ah, sim! Você! – claro! a voz da minha “inconseqüência”
- Quando é que você vai crescer, rapaz?
- Cala a boca, velho! Vamos nessa, vou só terminar de lavar as mãos e nós seguimos, ok?
- Tudo bem.

As garotas estavam muito entretidas conversando sobre assuntos quaisquer que muito as interessavam. Não queria interromper, mas seria de extremo maugosto ir embora sem me despedir.

- Améllie, Louise! Eu preciso ir agora.
- Ahwn… Mas já, cherry?
- Ah, Victor! Qualé? Fica aí… Uma boceta é mais importante que nós?
- Ehr… Não é isso Améllie. Eu realmente preciso ir.
- Que se dane! Por mim tudo bem. Mas volte aqui antes de sumir novamente, tá certo?
- Pode ter certeza disso! – concordei soltando um olhar tarado por todo o corpo de Améllie. [Ah! se consumar um desejo fosse tão fácil quanto fazer insinuações…]
- Caralho, Améllie! O cara tá te comendo com os olhos, ó! hahahaha
- Cachorro! Vai embora, vai! hahahaha
- Até mais, meninas!

De volta a rua pensei em pegar um taxi, mas, tamanha era a lombra que aquela erva me cedera que decidi continuar a pé até onde não aguentasse mais.
Uns 2 quarteirões depois percebi um carro bem velho parado no acostamento e um condutor transtornado. Resolvi chegar junto e oferecer ajuda.

- Aê, qual foi o problema, amigo?
- Ih cara! Faltou gasosa… Tu sabe onde fica o posto mais próximo?

Eu responderia essa pergunta sem sequer pensar mas, na situação que estava, consegui apenas olhar de um lado pro outro da avenida e pousar o olhar novamente no carro.

- Rapaz… Acho melhor eu te ajudar a empurrar o carro no sentido da avenida mesmo. Se fôssemos empurrar de volta, teríamos que fazer um retorno enorme… O que você acha?
- Se não for incomodar…
- Ah! Relaxa. Vamos indo!

Não sei exatamente por quantos metros eu e aquele sujeito ainda desconhecido empurramos o carro. O caso é que, cansados, paramos um pouco e uma conversa muito inesperada surgiu. Logo, me vi numa boa afinidade com ele.

- Ô cara! Valeu por me ajudar… Mas qual é teu nome mesmo?
- Victor.
- Victor do quê?
- Victor da Lombra, tá bom assim?
- Caralho, mané! Tu tava mesmo fumando um?
- Como é?
- Desde que tu veio oferecer ajuda, eu senti uma marofa da porra. Mas tava com vergonha de perguntar… Tu ainda tem aí?
- Que pergunta, hein?!
- Puts! É que eu ainda vou bater uma bolinha… E jogar de cara é uma merda!
- Deve ser… Mas vem cá, qual é seu nome mesmo?
- Ah, sim! Meu nome é Sidney!
- Beleza, Sidnelson! Se eu ainda tivesse seria um prazer dividir contigo, mas nem tenho. Umas amigas que tinham.
- Ah! Eu com umas amigas dessas! As mulheres de hoje em dia são todas pra-frentex, hein?
- Pra onde? …É, deve ser…
- Ô beleza! Comeu elas?
- Vai querer saber o número da minha cueca também?

Nisso, um carrão importado parou próximo a nós e o motorista perguntou qual o problema. Ficamos meio descrentes no que estava acontecendo, mas mesmo assim explicamos e, logo, o motorista se dispôs a ir comprar a gasolina no posto e retornar com ela para resolver nosso problema.

- Aí Sidney, você dinheiro pro cara pagar a gasolina?
- Ué! Você não deu?
- Cara! O carro é teu, lembra?
- Nooossa senhora! Fudeu!
- Tsc! Eu fumo e tu que fica doidão?
- É foda…
- Antes fosse! Vâmo nessa! Temos que continuar empurrando essa tua carroça! [engraçado como a gramática é inversamente proporcional à intimidade]

Sidney relutou um pouco mas, logo se entregou a árdua tarefa de empurrar. Metade do caminho resmungou, sobre o bacana do carrão, que era uma canalhice ficar bancando o prestativo só pra massagear o ego humanitário. Segundo ele: “gente rica nunca faz nada no zero oitocentos.”
Empurramos por mais uns 20 metros, aproximadamente. Então ouvimos uma buzina do nosso lado:

- É ele, Victor! Caralho! Que cara gente fina da porra!
- Ih! E tu queimando a dignidade dele em vão, já pensou?
- Deixa quieto! Vâmo lá falar com ele.

A situação ficou um tanto quanto esquisita… Sidney passou de raivoso marrento pra uma espécie de gazela saltitante. Foi dando pulinhos até o carro do cara e pegou duas garrafas de dois litros, cheias de combustível. Agradeceu várias vezes, mas em momento algum perguntou a quantia em dinheiro que foi paga pelos combustíveis. O motorista em momento algum demonstrou ressentimento por aquilo, provavelmente o dinheiro não lhe foi nenhum prejuízo.

- Ô Sidney… Tu pagou pro cara?
- Ué? O cara era o maior bundão, nem se ligou de cobrar…
- É… Vai ver foi isso, né?
- Sussega, “hombre”! Vâmo encher o tanque, me ajuda aqui! – A partir desse momento, os pedidos de Sidney perderam completamente a cordialidade…

Vendo a inabilidade de Sidney para realizar uma tarefa tão simples, me dispus a ajudá-lo novamente. Usando uma terceira garrafa cortada ao meio para servir de funil, pedi para que ele derramasse devagar o combustível. O imbecil virou rápido demais e o líquido encharcou minhas mãos.

- Cacete, Sidney! Deixa de ser ignorante!
- Pô, cara! Foi mal. Me desculpa?
- Ah! Dane-se! Vâmo terminar essa droga logo.

Mínimamente reabastecido, o carro voltou a funcionar. Sidney me agradeceu novamente e escreveu um endereço eletrônico num pedaço de papel que estava no porta-luvas, entregando-me logo em seguida.

- Aí, Victor! Precisando, faz um contato. Beleza?
- mmm… Tá certo. – concordei com visível decepção.

Mal terminei a frase e ele arrancou com tudo. E lá fiquei com cara de paisagem e as mãos fedendo a gasolina. Dobrei o papel e o deixei cair perto da sarjeta.

[sinceridade, agradecimento e humildade… Simulacros assim foram exatamente a causa da minha volta à Recife.]

- Pois é, Victor… Não se pode esperar nada em troca de ações pelas quais não somos obrigados.
- Porra, velho! Que filho da puta!
- Não o culpe… Você ofereceu ajuda sem ser solicitado.
- Vai querer dizer que a culpa é minha?
- Não existiria culpa se não houvesse incidente. E foi você que deu início a toda essa situação.
- Tu é um puto! Mas… Até que faz sentido isso que tu falou, viu?
- Agora decida-se, vamos ao que interessa ou não?
- mmmm… Agora é você que tá instigando uma nova situação.
- Por favor…! Não seja estúpido.
- Você sabe que dependendo de mim não procuraríamos essa Valentina. Alguma coisa nela não tá certo.
- Victor, você é muito ingênuo… Mas também, muito desconfiado.
- Tanto faz. Vamos lá… Se eu estiver certo, vou ganhar mais pontos de confiança?
- Você acha mesmo que todos esses anos de experiência serão superados por uma mera intuição juvenil? As pessoas seguem padrões…
- Bom, tanto faz pra mim… Vamos lá.

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