Durante todo o percurso até a casa, onde Valentina estava, estive analisando várias memórias - minhas ou não. Assim como numa fotografia, é possível percebermos detalhes que antes passaram despercebidos - já que nossa percepção sofre deformações de acordo com as sensações e sentidos que estivermos usando/sentindo naquele exato instante…
A cada rua cruzada uma nova memória era ativada. Quantas madrugadas eu já havia compartilhado com todas aquelas ruas! – Um fato curioso que até agora eu não havia comentado, é que um dos meus passatempos preferidos é andar de skateboard durante a madrugada. A melhor forma de se conhecer os segredos de uma cidade é durante a madrugada! É o momento no qual as pessoas menos interessantes se tornam o que há de mais interessante…
Foi durante essa caminhada pensante que me dei conta de que algumas memórias não batiam com a realidade. Alguma coisa estava errado com minha cabeça. Não conseguia distinguir se era algo que estava faltando ou se eu estava começando a misturar tudo.
- Victor, alguma coisa realmente está errada.
- Você também notou? Eu achei que fossem as suas memórias…
- Não é. Acho que uma das suas aventuras foi um pouco além dos limites.
- Por que tem que ter sido uma aventura MINHA?
- Você considera Valentina uma simples aventura?
- Ah! Dane-se o que ela seja! Se bem que, agora que você falou… lembra qual foi a memória que passamos pra ela?
- Quê? Acha que ela teria a capacidade de selecionar uma das nossas? Não seja tão ingênuo. Esqueceu o tempo que você levou pra conseguir isso?
- Vai saber…
- Olha, Victor, acho que essa sua infantilidade sobre o caráter de Valentina poderá nos causar problemas. Ela não pode desconfiar.
- Essa é boa! Agora eu sou infantil por desconfiar do caráter de uma puta qualquer?
- Você sabe tão bem quanto eu que ela não é uma qualquer!
- Tem razão! Não seria uma qualquer que me faria ficar tão intrigado.
- Chega de idiotice! Olhe, alguém conhecido.
Despertando de todo esse contato interior, a imagem de um velho amigo foi se tornando cada vez mais nítida com minha aproximação.
- CARALHO! Que é que tu tá fazendo por aqui, fresco?
- Eaí, Cachorrão, tudo bem?
- Demais… Por que diabo tu voltou e não me avisou, cacete?
- Foi meio que sem previsão, cheguei ontem e…
- É nenhuma, monstro! E aí, comeu muita gostosa lá pelo sul? Eu tô indo tomar uma cervejinha, vamo colocar o papo em dia?
(- Monstro? Ah, se ele soubesse…)
Cachorrão sempre foi um grande amigo - desses que você não precisa tentar impressionar nem forçar educação pra conseguir respeito. Nos conhecemos alguns anos antes de eu decidir embarcar no meu próprio “walkabout”. Depois que parti, poucas foram as vezes que conversamos de verdade. Porém, nossa amizade independia disso. Independente do tempo, sempre que nos reencontrávamos, era como se nunca estivéssemos afastados de verdade. Apesar do jeito despreocupado e obceno, ele era dotado de uma boa índole como ninguém mais – motivo pelo qual eu jamais confessei os segredos que aqui registro.
- Rapaz… Eu preciso me encontrar com uma mulher que conheci lá em Curitiba. Ela tá aqui, eu tô indo encontrá-la agora…
- Ah! é? Que fresco! Vai deixar de tomar uma com os amigos por causa de uma rapariga qualquer? Qual é o nome da puta?
(- Viu só, velho?)
- Deixa de ser prego, porra! E o nome dela é Valentina.
- Valentina? Eu conheço uma Valentina. Tô vindo da casa dela agora, será que não é a mesma?
- Não sei.
- Foi uma que saiu daqui, já há alguns anos, casada com um gringo pra morar no exterior?
- Provavelmente não. Essa que vou encontrar ganhava a vida se prostituindo lá em Curitiba.
- É O QUÊ? Tu tá saindo com puta agora, é? CA-CE-TE! E eu achando que tu tava bem…
- Vai te fuder! Ó, vamos tomar aquela gelada amanhã? Daí te dou mais detalhes desse “lance”.
- Tá certo, viado! Anota aí meu número novo e me ligue depois das 7.
- Da manhã?
- Tá doido?! Sete horas da manhã vai ser a hora que eu vou começar a dormir… 7 da noite, é claro!
- Então tá.
Anotei o número, nos despedimos e prossegui. Na verdade eu já estava quase lá, faltavam apenas mais dois quarteirões. Fiquei meio intrigado com a estranha coincidência – Valentina não é um nome muito comum em Recife. Porém, não haveria como ser a mesma. Ela já estava em Curitiba há muito tempo… A não ser que ela não tivesse realmente ido ao exterior. – Eu hein! Que nóia!
Dobrando a última esquina, era possível ver a casa. Localizada entre um jardim de infância e uma sede dos A.A. – visivelmente, já dominara a arte do anonimato.
Meu corpo vacilou por um breve momento na hora de tocar a campahia. Por mais que eu desejasse reencontrá-la, alguma coisa queria sair dali o mais rápido possível.
- Quem é?
- Sou eu, Victor.
- Victor? Aguentaê, broto!
(- Quantas saudades eu sentia dessas gírias…)
Deu para escutar os passos dela casa adentro e voltando com as chaves tilintando em suas mãos.
- E aí, broto? demorou, hein?
- Precisei fazer umas visitas antes…
- Ah, é? E eu sou a última opção da noite? Por que você não vai se f…
Antes que ela prosseguisse com suas maldições de praxe, me adiantei para lhe beijar.
- Eeeei, ei! Calmaê! Agora as coisas mudaram, meu bem!
- Hein?
- Entre e vamos tomar um café primeiro. Ok?
(- …?)
Não sabia se estava me sentindo ofendido ou o quê, mas a acompanhei até a cozinha. Tudo na casa estava perfeitamente arrumado: vários móveis antigos e objetos de valor. A sala-de-estar era um luxo absurdo. Quem iria imaginar que aquela casa, tão simples por fora, contivesse tantas riquezas?
- Nossa, Valentina! Você conseguiu suas coisas rápido, hein?
- Digamos que eu obriguei certas pessoas pagarem pelo que me deviam…
- É impressão minha ou existe uma dose extra de ironia nas suas palavras?
- Olha, melhor calar essa boca imunda porque você nem imagina o que eu passei…
- Eu achei que você estava sentindo a minha f…
- Falta? Você acha mesmo que eu caí nesse seu charme de terceira, broto?
- Como?
- É isso mesmo! Não venha querer me comprar com essas conversas fiadas! Você me quer? Pague por isso!
- Quanta mágua, mulher! Que diabos eu fiz a você?
Ela respondia tudo de costas para mim enquanto preparava duas xícaras de café.
- Obrigada por perguntar… Você aparece numa noite, me promete o paraíso, me come e depois vai embora como se eu fosse um lixo qualquer? Isso sem contar nas memórias que eu recebi…
- Qual o problema com as… MEMÓRIAS? Mas foi só uma que eu…
- Não importa! Você prometeu uma memória sua, e mentiu pra mim!
- Não é verdade. Era minha!
- Seu porco mentiroso! Mas não importa mais… Quer alguma coisa de mim? Cumpra com o que concordamos… Pague-me com SUAS memórias.
Toda a saudade que eu sentia até aquele momento se transformou em decepção. Esperava uma recepção pacífica e calorosa. Se bem que aquela realmente era a Valentina que eu conhecí: simplesmente insensível.
- Tudo bem, me desculpe. Quer que eu vá embora?
- Ha-ha! Até parece! Você me deve alguns bons motivos para não arrancar-lhe os bagos. Agora trate de se sentar e tomar esse café.
- Eu não estou entendendo…
- Simples, eu estou viciada nessa história de sugar memórias. Necessito de respostas que só você possui. E também, na cama, você não é de se jogar fora, vai me servir pra diminuir o stress dessa noite…
Baixei os olhos, fitando o café, e já não tinha mais certeza se realmente era desejo meu estar ali. Dei um gole maior no café, que desceu queimando pela minha garganta.
(- Victor, não a julgue.
- Ah! vai se ferrar, caralho! Essa mulher tá descontrolada! Vai fuder tudo, ela já sacou o que aconteceu. E que história é essa de “memórias”? Era pra ser uma só, esqueceu?
- Tenha calma, vamos resolver isso. Apenas, fique calmo.)
- Olha, broto, não confunda as coisas. Não leve isso pro lado pessoal! Negócios são negócios…
- Negócios… É, com certeza!
(- Tá vendo? Tem alguma coisa errada com ela! Tá sentindo?
- Deveras… Mas vamos com calma. Vamos apenas procurar uma pista.
- Pista do quê?
- Alguma coisa deve ter acontecido para ela estar assim… Vamos apenas sondar, certo?
- Por mim, acabávamos com a raça dela agora mesmo!
- Ainda temos muito a ganhar com ela…
- O quê?
- Deixe-me fazer o serviço dessa vez que, assim que formos embora, explico.
- Tudo bem!)
Resolvi deixar o sentimentalismo de lado e tratar de negócios de uma vez por todas. Estava disposto a entrar de vez na jogada, deixando o amadorismo pra trás.
- Vamos começar logo com isso!
- Assim que se fala, gato!
Junto com as últimas sílabas um sorriso doentio se formou na face de Valentia ao mesmo tempo no qual ela sentava-se em cima da mesa, derrubando as xícaras ao chão e encarando-me de pernas abertas.
- Vai em frente! Me fode!
Não pensei duas vezes, abri a braguilha e comecei o serviço. Antes mesmo de penetrar-lhe já estava com os dentes cravados nos seus lábios. Não estava interessado no prazer carnal, estava decidido a descobrir alguma pista sobre o que estava por trás daquele comportamento tão inesperado. Mas antes que as memórias borbulhassem pela minha língua, senti um cheiro muito familiar exalando do seu corpo:
- Cachorrão?
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